Startup brasileira capta R$ 10M para criar “economia sem CEP”

Tools for the Commons
Hugo Mathecowitsch, fundador da Tools for the Commons | Crédito: Divulgação

A ideia de que startups se limitam a criar softwares ou aplicativos ficou no passado. Para Hugo Mathecowitsch, fundador da Tools for the Commons, a próxima grande fronteira do empreendedorismo está em uma camada mais profunda: cidades, jurisdições e novos modelos de governança.

Essa tese acaba de ganhar fôlego com uma rodada pré-seed de R$ 10 milhões, levantada pela startup brasileira para acelerar a criação de zonas econômicas físicas e digitais, conectadas em rede, com regras próprias e infraestrutura baseada em blockchain.

Na prática, a Tools for the Commons funciona como um marketplace de jurisdições. Fundada em 2024, a startup desenvolve infraestrutura digital e institucional para zonas econômicas especiais e conecta empresas e trabalhadores da economia digital a esses ambientes, sem a dependência de um CEP fixo.

A proposta é permitir que esses usuários escolham o ambiente mais eficiente para operar e residir, com menos burocracia, carga tributária otimizada e modelos diferenciados de negócios e convivência. O conceito é o de um “estado em rede”, formado por múltiplas jurisdições descentralizadas que compartilham regras, governança e infraestrutura digital.

“A tese é que a próxima grande onda da década de 2030 não seja criar startups ou moedas, mas novas cidades e jurisdições”, afirma Hugo. “Cidades pensadas como Singapura, Dubai ou Shenzhen, com regras próprias, muito planejamento e tecnologia desde o início.”

Os primeiros testes

Hoje, a Tools for the Commons já opera ou distribui acesso a duas zonas. A primeira fica em Zanzibar, no leste da África, onde a startup firmou um acordo de longo prazo para desenvolver uma jurisdição com código comercial, civil e infraestrutura digital próprios. A segunda está em Honduras, em um estágio mais avançado. No país, a empresa atua como um dos braços de distribuição da Próspera, zona econômica especial e autônoma criada para acelerar inovações tecnológicas, científicas e empresariais.

Os aprendizados, segundo o fundador, vão além da tecnologia. “O ritmo de um governo é muito diferente do ritmo de uma startup”, diz Hugo. Para ele, o sucesso depende da parceria. “Quanto mais alinhado o jogo com os governos, maior a chance de dar certo.”

As operações já começaram a gerar receitas iniciais, com as primeiras dezenas de usuários em fase beta e contratos ligados ao desenvolvimento e à distribuição das zonas. A expectativa é acelerar a comercialização ao longo dos próximos meses.

Hugo destaca que a autonomia das zonas tem limites claros. “A gente separa o direito penal do direito civil. Questões como crimes continuam sob responsabilidade do Estado anfitrião. Já temas comerciais e cíveis podem ter alçada parcial ou total das zonas.”

Segundo ele, a proposta não é confrontar os Estados nacionais, mas atuar em parceria com governos, atualizando o modelo tradicional das zonas econômicas especiais para o mundo digital.

Para onde vai o dinheiro

A rodada da Tools contou com a participação do fundo 468 Capital, do ecossistema de deeptech Sthorm, da infraestrutura para contratos inteligentes Tanssi, da carteira digital multimoedas Coins e da holding de cidades inteligentes Grupo OSPA. A startup também recebeu apoio do programa de aceleração do escritório Pinheiro Neto e de investidores-anjo como Stephane Lopes, do Grupo Mata, além de Caetano Lacerda e Raphael Dyxklay, fundadores da Barte.

O capital levantado será usado principalmente para a atração de residentes e empresas, além da expansão do portfólio de zonas. “A maior parte dos recursos vai para o desenvolvimento comercial. Uma fatia menor segue para o desenvolvimento das zonas existentes, especialmente Zanzibar, e para trazer novas zonas para a plataforma”, explica Hugo.

A meta da startup é encerrar o ano com entre quatro e oito zonas ativas e entre 1.000 e 10.000 empresas operando na rede. O plano de expansão prevê novas zonas na América Latina, África e Ásia – regiões que, segundo o fundador, demonstram maior abertura para experimentar novos modelos institucionais.

Mesmo com atuação global, a Tools for the Commons concentra sua estratégia de comunicação no Brasil. “O time executivo é daqui, e o país já mostrou que consegue liderar o mundo em fintech e infraestrutura digital”, afirma Hugo, citando exemplos como o Pix, o GovBR e a digitalização do sistema financeiro.

Para o fundador, o Brasil não é apenas um mercado consumidor desse modelo, mas um potencial exportador de soluções institucionais, capaz de desenvolver suas próprias “Singapuras” e “Dubais” voltadas à economia digital.

Hugo acrescenta que a chamada economia desmaterializada – que reduz a intensidade de materiais na produção, promovendo eficiência via tecnologia – pode ser impactada pela reforma tributária. “É um tipo de negócio que não depende de um endereço físico para funcionar”, diz. A Tools mira justamente esse perfil de operação, com foco em negócios e empreendedores que operem de forma distribuída e busquem modelos institucionais cada vez menos vinculados a territórios físicos.

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